Mortalidade infantil: Portugal ocupa 10ª melhor posição a nível mundial
DATA
14/05/2014 17:59:24
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Jornal Médico
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Mortalidade infantil: Portugal ocupa 10ª melhor posição a nível mundial

mortalidade-omsNo grupo dos 22 países que integram a Europa Ocidental, Portugal é o que apresenta a melhor evolução no que se refere à redução da mortalidade infantil. E foi o que registou a maior redução média anual entre 1990 e 2013. Hoje, o país ocupa a sexta posição do ranking dos melhores classificados da região, à frente de países como a Bélgica, Dinamarca, Áustria, França Alemanha ou Holanda, revela o maior estudo alguma vez realizado sobre o tema, cujos resultados foram publicados há dias no Lancet. Já a nível global, Portugal ocupa a 10ª melhor posição no que se refere à taxa de mortalidade de crianças com menos de cinco anos de idade, entre os 188 países que subscreveram, em Setembro de 2000, os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM).

O estudo, financiado pela Fundação Bill & Melinda Gates e que envolveu centenas de investigadores de todo o mundo, apresenta alguns resultados que surpreendem, também, pela negativa. É o caso do Reino Unido (RU), normalmente apresentado como “exemplo a seguir” e que tem aquele que é considerado por muitos como o melhor serviço nacional de saúde do mundo. Pois bem, pese a fama, a verdade é que regista uma das mais elevadas taxas de mortalidade de crianças com menos de cinco anos de idade da Europa Ocidental, só ultrapassada pela registada em Malta.

De salientar que entre 2003 e 2013, apenas oito países viram aumentadas as suas taxas de mortalidade infantil, entre os quais, os Estados Unidos da América, que a par com o Canadá e o Reino Unido, dificilmente irão cumprir a meta de 4,4% fixada nos ODM, para 2015. 

Reino Unido: a desilusão europeia…
Os resultados do novo estudo coordenado pelo Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME) da Universidade de Washington, oferecem uma nova imagem global dos progressos registados ao nível da redução da mortalidade infantil, alguns surpreendentes. É o que acontece com o Reino Unido, que não obstante apresentar em termos de padrão global, taxas de mortalidade infantil bastante baixas, no contexto da Europa Ocidental, o país apresenta taxas de mortalidade infantil superiores às registadas em todos os demais 22 países da região, à excepção de Malta, o pior classificado. A taxa de mortalidade em crianças com menos de cinco anos de idade é, no Reino Unido, de 4,9 mortes por mil nascimentos, mais do dobro da registada na Islândia (2,4/1000), o país com a mais baixa taxa de mortalidade naquela faixa etária. Neste parâmetro, Portugal regista 3,5 mortes por mil nascimentos, ocupando o sexto lugar no ranking dos países com melhores resultados.

A média dos 22 países que integram a região é de 3,9 mortes por 1000 nascimentos.

Outro dado perturbador é o que informa que em 2013, morreram no Reino Unido 3800 crianças com menos de cinco anos de idade, o valor mais elevado, em termos absolutos, registado na região.

No que se refere às taxas de mortalidade nos diferentes escalões etários pediátricos os resultados mostram, uma vez mais, que o Reino Unido apresenta um dos piores cenários regionais no que toca à mortalidade neonatal (0 a seis dias), pós-neonatal (28 a 364 dias) e o pior resultado de entre todos os países da região no que se refere ao número de óbitos em crianças com entre 1 e 4 anos de idade.

A taxa de mortalidade infantil no escalão “menos de cinco anos de idade” do Reino Unido, é comparável com a de países como a Sérvia e a Polónia.

Já quando se comparam os dados britânicos com os registados no resto do mundo, é de assinalar que os mesmos são piores do que os encontrados na Austrália, Israel, Japão, Singapura ou na Coreia do Sul.

Ainda assim, não tão maus como os de países como o Canadá (5,4/1000) ou os Estados Unidos da América (6,6/1000). Aliás, importa salientar que à excepção de Malta e da Grécia (e aqui, apenas no que toca à mortalidade entre os 7 e os 28 dias), todos os países da Europa Ocidental apresentam, em todas as faixas etárias, melhores resultados do que os registados nos EUA e no Canadá.

“Ficámos surpreendidos com os resultados uma vez que o Reino Unido protagonizou enormes avanços ao nível da Saúde Pública ao longo dos anos”, comentou Christopher Murray, director do IHME e principal autor do estudo. “As taxas de mortalidade infantil mais elevadas do que era esperado registadas no Reino Unido, lembram-nos a todos de que não obstante assistirmos a uma redução global da mortalidade infantil, os países devem examinar o que estão a fazer para garantir que mais crianças cheguem à idade adulta”.

Globalmente, as taxas de mortalidade têm registado um declínio constante desde 1990, com uma taxa mais acentuada de declínio em muitos países sob observação desde que foram estabelecidos os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM), em 2000. No Reino Unido, não obstante o número de mortes de crianças por mil nascimentos ter diminuído de uma forma geral entre 1990 e 2013, a verdade é que esse declínio abrandou para metade entre 2000 e 2013 do que o registado entre 1990 e 2000.

“Estes números mostram o impacto significativo para a saúde que as crianças representam no Reino Unido, quando comparado com o registado noutros países vizinhos europeus. As razões para este facto aparentam ser complexas, mas certamente incluem uma má organização dos serviços de saúde pediátricos do Reino Unido. Até que os nossos políticos comecem a encarar de forma mais séria a saúde infantil – a saúde da próxima geração de cidadãos britânicos – recém-nascidos e crianças mais velhas continuarão a sofrer e a morrer desnecessariamente,” defendeu, a propósito do estudo, Richard Horton, Editor-chefe do The Lancet.

Considerando a Europa no seu todo, os piores índices de mortalidade infantil registam-se em países da Europa Central (6,7 mortes por mil nascimentos) e da Europa de Leste (9,7 mortes por mil nascimentos).

Melhorias, ainda longe dos objectivos dos ODM
Os resultados agora conhecidos integram um estudo patrocinado pela Fundação Bill & Melinda Gates, realizado à escala global, regional e nacional, que avaliou a mortalidade infantil, em diferentes escalões etários, entre 1990 e 2013.

De entre os resultados obtidos, destaca-se, pela negativa, o facto de, não obstante 137 países terem registado reduções mais significativas da mortalidade infantil entre 2003 e 2013 do que entre 1990 e 2003, a verdade é que apenas 40 cumpriram a meta nº 4 dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio, estabelecidos em 2000, que estipula uma redução, em dois terços, da mortalidade nesse escalão etário, algo só possível com reduções anuais de 5,5% ao ano em ambos os intervalos temporais.

De 1990 a 2013, a Albânia, Bósnia, Estónia, Lituânia, Letónia, Polónia, Roménia, Roménia, Rússia e Bielorrússia, ultrapassaram as metas propostas pela OMS, com decréscimos superiores a 5,5%/ano. Na Europa Ocidental, Portugal foi o único país que cumpriu a meta.

Entre 2003 e 2013, apenas oito países viram aumentadas as suas taxas de mortalidade infantil. Foram eles o Afeganistão, El Salvador, Guiné-Bissau (que apresenta o pior perfil mundial, com 152,5 mortes por mil nascimentos), Grécia, Seicheles, Sudão do Sul e… Estados Unidos da América.

No estudo, estima-se que em 2003, tenham morrido 6,3 milhões de crianças com menos de 5 anos de idade. Um número desesperante, mas ainda assim muito inferior ao que se registava em 1970 quando o número de mortes atingia 17.6 milhões de crianças.

Em 2013, a mortalidade neonatal representava 41,5% das mortes de crianças com menos de 5 anos de idade. Em 1990, esse peso era de 37.4%.

Em 2013, 26 países foram responsáveis por 80% do total de mortes registadas em todo o mundo: Afeganistão, Angola, Bangladesh, Brasil, Burkina Faso, Camarões, Chade, China, Costa do Marfim, República democrática do Congo, Etiópia, Gana, India, Indonésia, Quénia, Malawi, Mali, Moçambique, Níger, Nigéria, Paquistão, Filipinas, Somália, Sudão, Tanzânia e Uganda.

Apenas nove países foram responsáveis por dois terços da redução global de 3,1 milhões de mortes de crianças em 2013, relativamente a 2000: India, China, Etiópia, Bangladesh, Indonésia, Paquistão, Brasil, Afeganistão e Nigéria.

Com base nos índices de redução registados entre 1990 e 2013, os investigadores estimam que apenas 27 dos 138 países em vias de desenvolvimento deverão atingir a meta número 4 dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio, de redução, em dois terços, da mortalidade infantil entre 1990 e 2015. São eles: Arménia, Bahrain, Bangladesh, Benin, Butão, Brasil, Burma, China, Egipto, El Salvador, Federação de Estados da Micronésia, Irão, Líbano, Libéria, Líbia, Maldivas, Nepal, Nicarágua, Oman, Peru, Arábia Saudita, Sri Lanka, Tailândia, Timor-Leste, Tunísia, Turquia e Emirados Árabes Unidos.

De acordo com os investigadores, que suportam a sua análise no seu estudo e em estudos anteriores, a maioria dos 188 países signatários da Declaração de Objectivos do Milénio não conseguirá atingir a meta relativa à mortalidade infantil no prazo previsto (2015). De acordo com projecções realizadas no âmbito do estudo, em 2030 nove países (República Central Africana, Chade, República Democrática do Congo, Guiné-Bissau, Lesoto, Mali, Nigéria, Serra Leoa e Somália) manterão taxas de mortalidade superiores a 70 mortes por mil nascimentos, sendo que em dois deles, a Guiné-Bissau e o Chade, essa taxa será superior a 100 mortes/1000.

Referência:

Global, regional, and national levels of neonatal, infant, and under-5 mortality during 1990—2013: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2013.
The Lancet, Early Online Publication, 2 May 2014; doi:10.1016/S0140-6736(14)60497-9

 

 

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Editorial | Luís Monteiro, membro da Direção Nacional da APMGF
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