Na semana em que se celebra o dia Mundial do Sono, a Sociedade Portuguesa de Pneumologia vem levantar uma questão: será que o sono é um sinal vital? Sabemos que as perturbações do sono são uma queixa comum durante as consultas independentemente da especialidade. Em cerca de 50% das consultas de Medicina Geral e Familiar, independentemente do motivo de visita ao médico, é referido um sintoma relacionado com o sono. A suspeita de apneia de sono pode ser responsável por cerca de 50% dos pedidos de referenciação à consulta de Pneumologia. Cerca de 30% dos doentes com patologia reumática podem ter perturbações do sono, desde insónia, síndrome de pernas inquietas ou síndrome de apneia obstrutiva do sono (SAOS). Nas principais recomendações internacionais para o estudo de HTA refratária e fibrilhação auricular é preconizado o estudo de SAOS, tornando o sono numa questão incontornável nas consultas de Cardiologia. A ligação entre a patologia cardiovascular e a SAOS é de tal forma importante que a arritmia, insuficiência cardíaca e cardiopatia isquémica fazem parte dos critérios de diagnóstico da própria SAOS. Conhecemos os mecanismos das perturbações do sono na etiopatogenia de muitas doenças, sobretudo cardiometabólicas e cerebrovasculares. Sabemos a importância para o controlo da diabetes de uma SAOS tratada de forma adequada e para o controlo das doenças cardiovasculares da identificação e abordagem terapêutica das perturbações do sono. Ainda assim, o sono é um tema pouco abordado nas consultas de rotina. De acordo com um estudo publicado em 2015, apenas 43% dos médicos fala de forma regular com os doentes sobre o sono vs. 80% dos médicos que abordam o exercício físico e 79% sobre alimentação equilibrada. Considerando o sono, alimentação e exercício físico regular como os três pilares da vida saudável, todos deviam ser alvo de abordagem a cada consulta. A Sociedade Portuguesa de Pneumologia lança a proposta, a propósito do Dia Mundial do Sono, que este ano é dedicado ao tema “Regular sleep for a healthy future”, de passar a incluir a avaliação do sono a cada consulta. Perguntas simples como “dorme bem?”, “sente que o sono é reparador?” ou acerca da sonolência excessiva durante o dia podem levantar a suspeita e levar ao início da marcha diagnóstica para a identificação precoce de uma patologia do sono não diagnosticada. Incorporar pelo menos uma questão sobre sono a cada consulta pode ter impacto no próprio doente, mas também ter repercussão na saúde pública, uma vez que as perturbações do sono têm um alcance que ultrapassa o carácter individual. Neste projeto, a Sociedade Portuguesa de Pneumologia estabeleceu uma parceria com a Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar para um projeto que prevê a introdução do tema sono a cada consulta. Para que o sono seja encarado como um sinal vital, medido a cada avaliação com o mesmo rigor de uma medição de pressão arterial. E, como diz o lema no Dia Mundial do Sono, recordar a importância do sono para um futuro saudável.