
Uma técnica considerada “revolucionária” no tratamento da hiperplasia benigna da próstata, desenvolvida em Portugal, está a cativar o interesse dos mais importantes centros hospitalares a nível mundial. No passado dia 21 de setembro, duas equipas médicas das Clínicas Mayo, uma da unidade de Scottsdale/Phoenix, no Arizona e outra da unidade de Jacksonville, na Flórida estiveram em Lisboa em formação, com o objetivo de replicar a técnica nos Estados Unidos da América. Já em Janeiro, uma outra equipa oriunda da Mayo Clinic de Rochester, no Minnesota – a primeira unidade daquele que é considerado um dos mais avançados grupos hospitalares a nível mundial – deslocara-se ao nosso país com o mesmo objetivo. Ao todo, já vieram ao nosso país para receber formação em embolização prostática 84 equipas médicas oriundas de cerca de 70 países… de todos os continentes.
O nosso jornal esteve presente no primeiro dia de formação dos clínicos norte-americanos, assistiu a três das várias intervenções que se realizaram nesse dia e falou com o “pai” da técnica, o Radiologista de Intervenção João Pisco, professor jubilado da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa.
“Começámos em março de 2009, inspirados nos bons resultados que tínhamos alcançado no tratamento por embolização de fibromiomas uterinos, em que também fomos pioneiros” no país, começou por relatar João Pisco, para logo acrescentar: “e inspirado por um caso familiar – um meu irmão – que falecera pouco tempo antes devido a complicações pós-cirúrgicas de remoção da próstata por cirurgia aberta”, recorda.
E também por diversos estudos publicados com bons resultados em experiências em animais.
“Contactei inúmeros urologistas, propondo-lhes que se tentasse a nova técnica em doentes que não pudessem ser tratados de outra forma”.
Pese o apelo aos colegas, o primeiro doente viria a ser um seu conterrâneo de 76 anos, que um dia lhe bateu à porta aflito, em busca de auxílio. “Já tinha sido submetido a duas intervenções cirúrgicas e estava algaliado há meses. Tratei-o numa quinta-feira e na segunda seguinte, já urinava normalmente, sem algália. Seis meses depois anunciou-me que a namorada engravidara”.
Face ao sucesso alcançado, propus à administração do Hospital de St. Louis a replicação da técnica, de forma gratuita, em mais doentes. Tratámos 23 homens, com resultados excelentes”.
Daí à divulgação internacional foi um passo: “apresentei os resultados nos Estados Unidos da América (EUA) e a recetividade não podia ter sido melhor”, tendo sido então convidado para uma conferência cuja “nota de imprensa” foi mencionada em 220 publicações mundiais.
– E no que consiste exatamente o procedimento? Quisemos saber.
A embolização das artérias prostáticas é um procedimento realizado com anestesia local e sem perda de sangue, efetuado a partir de um pequeno orifício de 1,5 mm de diâmetro, na virilha, onde é introduzido um microcatéter que é encaminhado, com recurso às mais avançadas técnicas digitais de Raios X, para as artérias prostáticas. Chegados aqui, são injetadas microesferas de polivinil álcool (PVA), que vão entupir (embolização) parte dos ramos que irrigam a próstata, mantendo intacta a artéria pudenta interna e as artérias do pénis”. E é precisamente aqui que reside uma das principais vantagens da técnica inovadora introduzida pelo professor da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa. Ao contrário do que acontece, quer com a terapêutica farmacológica, quer principalmente com as demais técnicas cirúrgicas ou endoscópicas de remoção da próstata, as complicações pós embolização não só são raras, como pouco relevantes e de curta duração. Entre elas, as comuns a qualquer cateterismo, sendo as mais frequentes, o hematoma no local da punção e a equimose na coxa e mais raramente no abdómen. Menos frequentes (em cerca de 10% dos casos), surgem as infeções urinárias, facilmente evitáveis através do recurso a antibioterapia antes da intervenção e sangue na urina.
Ninharias… Se pensarmos que a ejaculação retrógrada é uma das consequências frequentes das cirurgias prostáticas, quer abertas quer endoscópicas. Assim como as estenoses da uretra e da loca prostática/colo vesical. A disfunção eréctil é outra das complicações associadas aos tratamentos atualmente utilizados, particularmente à cirurgia a céu aberto.
Outra das “excentricidades” da nova técnica reside no facto de “quanto maiores e mais graves forem as queixas e o tamanho da próstata (mais de duas centenas dos doentes tratados tinham próstatas com mais de 100 cc de volume)… melhores os resultados alcançados”, destaca João Pisco.
E que queixas entram no rol?… Desde logo tem que haver sintomatologia urinária – aumento da frequência das micções com eliminação de pequenos volumes de urina, em especial durante a noite; jato urinário fraco e/ou interrompido; urgência em urinar com dificuldade em controlar a urina; sensação de não ter esvaziado completamente a bexiga após urinar, acompanhada, ou não, de dificuldade de iniciar a micção; retenção urinária total com necessidade de recurso à algaliação… Isto para além das já referidas da impotência e outras disfunções sexuais associadas muitas vezes à medicação prostática.
Até hoje já foram tratados no Hospital de St. Louis mais de 900 doentes, de 58 nacionalidades, com taxas de sucesso inicial entre os 85 e os 90% e a longo prazo entre 75 e 80% dos casos. O sucesso alcançado deve-se em parte à excelente equipa de jovens constituída por seus ex-alunos e que se iniciaram nas técnicas de intervenção no 4.º ano do Curso Médico. Esta equipa – a mais jovem e melhor preparada a nível internacional – surpreende todos os colegas estrangeiros que nos visitam.
Para além das melhorias praticamente imediatas que sentem após serem submetidos a embolização, os doentes suspendem a medicação – em muitos casos crónica – indicada para a hiperplasia benigna da próstata. “O doente sai no mesmo dia. No dia seguinte pode fazer a vida normal, não devendo contudo conduzir. Mas após isso, não há quaisquer limitações”, destaca João Pisco.
As melhoras são rápidas: “cerca de metade dos doentes já sente melhorias aquando do momento da “alta”, o que é verdadeiramente extraordinário”, sublinha o especialista.
Importante também, o facto de os doentes que não melhorem após uma primeira embolização, poderem repetir a técnica seis meses depois.
Mas também há critérios de exclusão. A técnica não é realizada em doentes em que se constate, através de angio TC, artérias demasiadamente comprometidas por arteriosclerose.
Pese o sucesso além-fronteiras, em Portugal, país onde foi desenvolvida, a embolização prostática é realizada apenas no Hospital St. Louis, embora João Pisco esteja convencido de que dentro de quatro ou cinco anos será indicado como o tratamento mais adequado para a HBP.
Neste momento decorre um estudo – aprovado nos EUA pela Food and Drug Administration (FDA) para avaliar os benefícios da nova técnica. Ao todo serão estudados 80 doentes (24 dos quais já o foram), 40 de “grupo controlo” e outros tantos, submetidos a embolização prostática.
Os critérios de admissão no estudo são muito rigorosos, tendo os doentes que referir sintomatologia grave com IPSS (International Prostate Symptons Score) de pelo menos 20 pontos. A que acresce o terem que ter próstatas com mais de 40 cc de volume e estarem a fazer medicação para a hiperplasia benigna da próstata desde há pelo menos seis meses antes do início do estudo. Após a admissão no estudo, o tratamento será gratuito.
A seleção dos doentes para grupo controlo e para tratamento é feita de forma aleatória. É entregue um envelope ao doente, do qual ele retira uma folha dobrada que entrega ao médico. O conteúdo da folha, só conhecido do médico, indica em qual dos grupos o doente deverá ser incluído.
De salientar que ao final de seis meses, o doente é informado a qual dos grupos pertenceu, sendo alvo de tratamento no caso de ter pertencido ao “grupo placebo”.
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