
A OCDE publicou há dias o seu relatório anual “How’s Life? 2015”, que descreve a evolução dos principais ingredientes que dão forma ao bem-estar das pessoas nos países da OCDE e parceiros. Como vem sendo habitual, o primeiro indicador apresentado é o da evolução do rendimento anual líquido disponível das famílias (RLDF), per capita, no qual Portugal e os demais países afetados pela crise económica e financeira internacional foram mais afetados. Neste indicador, são contabilizados todas fontes de rendimentos da família: salário, trabalho extra, rendimentos de capital, subsídios, etc. após deduzidos impostos.
Assim, entre 2009 e 2013 (no caso português os dados são de 2014), o crescimento médio do RLDF das famílias foi de 1,9%. Uma média que não reflete a realidade particular de cada um dos 34 países da organização, fundada em 1961. De facto, em um terço dos países registou-se um decréscimo do RLDF, com a Grécia a liderar as perdas (-30%) seguida da Irlanda (-18%), Espanha (-11%) e de Portugal e Itália, ambos com quebras de aproximadamente -9%. No lado oposto da tabela, os maiores ganhos no período considerado verificaram-se na Federação Russa (+18%), no México e na Coreia, ambos 12% de crescimento e na Noruega, (+8%).
Outro indicador relevante para “medir” a saúde de uma população é a taxa de desemprego e muito particularmente a de desemprego de longa duração, que coloca os afetados em risco de pobreza, privação, exclusão social, entre outros, com impactos negativos na saúde.
Em 2014, a proporção da força de trabalho desempregada há mais de um ano no universo dos países membros da OCDE e parceiros da organização, registava uma variação de entre menos de 1% na Coreia, México, Noruega, Israel, Islândia, Nova Zelândia e Canadá, a mais de 7% em Itália, Portugal e República Eslovaca. Pior, só mesmo a Espanha, com 12,9% e a Grécia, com uns impressionantes 19,5%.
De salientar também que, desde 2009, o desemprego de longa duração aumentou em mais de dois terços dos países da OCDE. Na Grécia, a taxa de desemprego de longa duração em 2014 foi mais do que cinco vezes superior à registada em 2009. No mesmo período, triplicou na Holanda, Espanha, Eslovénia e Dinamarca e duplicou em Itália, Nova Zelândia, Portugal e Irlanda. Já na Turquia, Alemanha e Israel, o desemprego de longa duração diminuiu em mais de um ponto percentual.
Outro indicador avaliado pela OCDE como relevante para o índice de bem-estar da população é o da probabilidade de se ficar desempregado. Também aqui, as diferenças entre nações são muito marcadas. Em 2014, a probabilidade de se ficar desempregado foi menor no Japão, Alemanha, Suíça e Noruega, onde afetou menos de 1 em cada 33 trabalhadores. Já em Portugal e na Finlândia, essa probabilidade afetava 1 em cada 15 trabalhadores. Também aqui, Grécia e Espanha ocupam os piores lugares do “ranking”, com 1 em cada 10 trabalhadores em risco de desemprego na Grécia e 1 em cada 7 em Espanha.
Custos com habitação aumentaram 1.7% entre 2006 e 2014
O local onde as pessoas vivem pode ter um grande impacto nas suas vidas. Neste universo inclui-se a habitação e o acesso a saneamento básico e a outras infraestruturas.
A habitação é essencial, não apenas para suprir a necessidade básica de abrigo, mas uma condicionante da sensação de segurança e privacidade e um espaço importante para o relacionamento interpessoal e para o desenvolvimento da família.
O número de divisões de uma habitação por pessoa é um dos indicadores de qualidade do “local onde se vive”. E mais uma vez, as variações entre os países membros da OCDE é muito ampla. Em média, casas no Canadá, Estados Unidos, Nova Zelândia, Austrália e Bélgica têm o dobro de quartos por pessoa, do que as habitações no México, Hungria, Polónia, República Eslovaca e Turquia. Em Portugal, de acordos com os dados da OCDE, a média é de 1,6 divisões por pessoa em cada habitação, em Espanha, de 1,9 e na Grécia, de 1,2.
Ora, em todas as sociedades, os gastos com habitação constituem uma das despesas com maior peso no orçamento das famílias. O que mudou nos últimos anos? Os dados disponíveis apenas nos permitem comparar a evolução entre 2009 e 2012. E informam que em Portugal, a percentagem do orçamento familiar afeto a despesas com habitação aumentou de 17,3% para 19% no período considerado. Ou seja, mais 1,7%. Na Alemanha, a diferença foi de apenas 0,1%, na Grécia, 3,2% e em Espanha 2,6%. De salientar que a média da OCDE neste indicador foi de 0%.
Saúde… Um indicador com inúmeras variáveis
Praticamente tudo o que nos rodeia tem impacto na saúde que gozamos. Real ou percebida…
Centremo-nos, antes de mais, nos dados fatuais. Em termos de esperança média de vida à nascença, Portugal “não fica mal na fotografia” face ao resto do mundo, com 80,9 anos. Ainda assim, longe dos 83.3 anos registados em Espanha, o país Europeu mais bem posicionado no “ranking” da OCDE, logo atrás do Japão. Atrás de nós encontramos países que costumam ser apontados como “referência” como a Bélgica, Dinamarca ou Alemanha. E estamos também longe, pela positiva, dos valores registados nos Estados Unidos da América, onde a esperança média de vida à nascença é de apenas 78,8 anos.
O problema é que longevidade não é necessariamente sinónimo de boa saúde. Para determinar esta condicionante, a OCDE introduz no seu relatório (à semelhança, aliás, do que têm feito outras organizações internacionais), o conceito de “perceção de saúde” que traduz a percentagem da população com 15 anos ou mais de idade que afirma estar em “bom” ou “muito bom” estado de saúde. O indicador baseia-se na seguinte pergunta: “Como está a sua saúde em geral?” As possibilidades de respostas variam entre o “muito bom” e o muito mau, ainda que a metodologia registe algumas nuances de país para país.
Em termos globais, a média dos que afirmam gozar de “boa” ou “muito boa” saúde, no universo considerado pela OCDE, era, em 2013 (o ano mais recente para os quais estão disponíveis resultados), de 68,8%... Menos seis décimas do que em 2009.
Entre os mais insatisfeitos com a sua saúde num conjunto de 35 países relativamente aos quais a OCDE conseguiu recolher informação fidedigna, encontramos a Coreia do Sul, onde em 2013 apenas 35,1% da população considera gozar de “boa” ou “muito boa saúde” (contra 44,8% em 2009), o Japão (que ainda assim viu o indicador melhorar no período em análise de 32,7% para 35,4%)… E Portugal, onde de 2009 para 2013, a percentagem de gente satisfeita com a sua saúde, em maior ou menor grau, decresceu de 47,7% para 46,1%.
No extremo oposto encontramos a Nova Zelândia, país onde 89,6% da população afirma estar de boa ou muito boa saúde, o Canadá (88,7) e os EUA (87,5%) …
Portugal foi o segundo país onde as cargas horárias de mais de 50 horas semanais mais cresceram desde 2009
A forma como os indivíduos ocupam o seu tempo constitui um fator decisivo para o seu bem-estar geral. Ora, muitos trabalhadores despendem mais tempo nos seus locais de trabalho do que realizando outro tipo de atividades. Conseguir um equilíbrio entre o tempo dedicado à atividade profissional e a outras atividades é essencial para a saúde e felicidade dos indivíduos e também para o relacionamento com amigos, família e com a comunidade em geral.
Esta capacidade de conseguir alcançar um equilíbrio entre trabalho e vida pessoal influencia também o bem-estar dos outros. Por exemplo, cuidar de crianças e outros dependentes é uma importante forma de “trabalho não remunerado” que muitas pessoas têm de conciliar com a sua atividade profissional.
Uma tarefa difícil diz a OCDE, quando no universo dos países que integram a organização 1 em cada 8 trabalhadores trabalham habitualmente 50 ou mais horas semanais.
A proporção de empregados com cargas horárias excessivas face ao total da população, varia de apenas 1 em cada 250 na Holanda para 1 em cada 2,4 na Turquia.
Uma situação agravada com a crise económica e financeira iniciada em 2008. De facto, aponta a OCDE no seu relatório, desde 2009, a proporção média de trabalhadores com cargas horárias excessivas aumentou cerca de 0,7 pontos percentuais em toda a OCDE. Os maiores crescimentos registaram-se em Portugal e no Chile onde a incidência de cargas horárias iguais ou superiores a 50 horas semanais em 2013 quase que duplicou face a 2009 – um aumento de 6,9 pontos percentuais no Chile e de 4,4 pontos percentuais em Portugal. Já a Turquia, que se encontra na cauda da tabela da “exploração” laboral, registou a mais marcada evolução positiva, tendo recuado 4,4% relativamente a 2009. Evolução positiva, também, assinalada em Israel, República Checa, Áustria e Brasil, que no período em causa viram reduzida a percentagem de população com cargas horárias excessivas em mais de dois pontos percentuais.
O que deixa pouco tempo para atividades de lazer e cuidados pessoais – onde se inscrevem, entre outras, comer, dormir, higiene, exercício e tempo para partilhar com amigos e família – importante para que se gere um sentimento de equilíbrio trabalho-vida essencial ao bem-estar geral dos indivíduos. Entre os 20 países da OCDE onde existem dados disponíveis, um trabalhador gasta em média pouco menos de 15 horas por dia em atividades lúdicas e cuidados pessoais. Também neste indicador as variações entre países são muito pronunciadas. Por exemplo, enquanto em França, Espanha, Dinamarca, Bélgica, Noruega e Alemanha um trabalhador despende em média 15,5 horas diárias em atividades fora do contexto laboral, nos EUA, Polônia, Canadá e Austrália, o tempo disponível cai para menos de 14,5 horas diárias. Portugal não foi considerado na tabela uma vez que os dados relativos ao nosso país também incluíam as situações de trabalho em part-time.
Educação e competências… o calcanhar de Aquiles luso
Pese o facto de uma boa educação tornar mais fácil conquistar uma melhor posição profissional, a educação, em si, é muito mais do que isso. Aprender e adquirir novas competências é per si gratificante, estando demonstrado que níveis mais elevados de educação estão associados a melhores condições de saúde e a uma maior participação cívica.
Também neste indicador, as diferenças entre países são gritantes. De facto, lê-se no relatório da OCDE, pouco mais de três quartos da população dos países membros da organização tinha completado o ensino secundário. Uma realidade particularmente negativa em Portugal, Itália, Chile, Espanha, México e Turquia, onde entre 2009 e 2013 menos de 60% da população com entre 25 e 65 aos de idade tinha completado aquele grau de ensino.
A desagregação dos dados permite uma imagem fiel da dimensão do problema: em 2009, apenas 29,89% dos portugueses da faixa etária considerada, tinham terminado o ensino secundário. A percentagem atingiria, em 2013, 40,04%... Uma evolução muito positiva, mas ainda assim muito longe da média da OCDE que era, em 2013, de 77,23%. Mau resultado apresenta também a Espanha, que ocupa o quarto lugar no “ranking” pela negativa, logo a seguir a Portugal, com 55,64% da população da faixa etária considerada a cumprir o indicador.
No extremo oposto da lista, encontramos a Rússia (90,12%), República Checa (92,81%), Eslováquia (91,79%) e Estónia (90,6%)… E mais uma dúzia de nações com percentagens superiores a 80%.
A iliteracia é, de acordo com o relatório da OCDE, um problema estrutural, que afeta de diferentes formas toda a população em maior ou menor grau. Particularmente na formação de competências. De acordo com um inquérito da organização internacional realizado com o objetivo de que avaliar a proficiência de adultos (dos 16 aos 65 anos de idade) nos domínios da literacia, matemática e resolução de problemas em ambientes ricos em tecnologia, as competências dos adultos variam significativamente entre os países, particularmente no que respeita à matemática. O Japão e Finlândia têm os mais altos níveis de proficiência tanto em matemática como na alfabetização enquanto a Itália e a e Espanha apresentam maus resultados nestes domínios.
Segundo a OCDE, as competências dos adultos tendem a espelhar os resultados para habilidades cognitivas entre jovens de 15 anos, ainda que se registem exceções, como a Suécia e a Noruega, países onde os níveis de conhecimento dos adultos são muito superiores aos dos jovens de 15 anos. Já na Coreia, verifica-se o oposto, com o nível elevado para habilidades cognitivas entre os jovens de 15 anos a contrastar com a classificação média dos adultos.
Portugal não foi considerado neste “ranking”, por falta de informações. Todavia, tendo em conta o nível de iliteracia nacional, o panorama não será, provavelmente, o mais brilhante.
Relações sociais: com quem contamos quando estamos aflitos
Relações sociais positivas são uma poderosa fonte de bem-estar. Investigações qualitativas sobre a utilização do tempo sugerem que a socialização surge destacada na atividade diária da maioria das pessoas. Solidão e falta de apoio social são fatores críticos para baixo bem-estar. Indivíduos com fortes redes sociais são também mais propensos a terem um emprego e a revelarem melhor estado de saúde.
De acordo com os dados da OCDE, na maioria dos países-membros, pelo menos, 85% das pessoas refere poder contar com alguém em momentos de necessidade. Embora as diferenças entre países sejam pequenas, há ainda assim algumas diferenças relevantes. No topo da lista dos que têm por certo poderem contar com amigos em caso de aflição, estão os irlandeses. De facto, 96,29% da população está convencida de que assim é. No extremo oposto, encontramos a Coreia do Sul, onde apenas 72,37% das pessoas têm alguém a quem pedir ajuda em caso de necessidade. Portugal ocupa a sétima pior posição, com 85,65% de nós a afirmar que não fica só em caso de precisão.
De salientar que a perceção de existência de uma rede de apoio em caso de necessidade varia em função dos grupos etários analisados. Por exemplo, 95,85% da população portuguesa com entre 15 e 29 anos acredita que tem suporte de retaguarda em caso de necessidade. Na população com entre 30 e os 49 anos de idade, a percentagem dos que confiam no apoio de terceiros desce para 86.86. Já os portugueses com mais de 50 anos de idade confiam menos. Apenas 79,9% acredita que tem alguém com que pode contar em caso de aflição.
Segurança… Do 8 ao 80
Um outro fator que pesa no bem-estar de qualquer indivíduo e na sociedade em que se insere é o da segurança face ao crime. Um indicador que apresenta variações enormes em função da geografia. Por exemplo, em 2012, a taxa de mortes na sequência de assaltos, por 100 mil habitantes, foi de apenas 1,1. Muito mais do que na Dinamarca, onde a taxa foi de 0,3 mortes por 100 mil habitantes. Um valor idêntico ao registado na Grã-Bretanha, na Islândia e no Japão. No extremo oposto da tabela, encontramos o Brasil (25,5), o México (23,4) e a Rússia (12,8) e EUA (5,2). Em todos os demais países membros ou parceiros da OCDE, este indicador foi inferior a 5.
Já de terem sido vítimas não mortais de assalto… Queixaram-se 1 em cada 25 cidadãos de estados membros ou parceiros da OCDE. Evidentemente, com diferenças geográficas que desfiguram a média. No México, por exemplo, em 2014 13.06 em cada 25 pessoas referiu ter sido vítima de assalto nos últimos 12 meses. Em Portugal, 5,81 queixaram-se do mesmo. Com menor taxa de criminalidade encontramos o Canadá (1,31), Japão (1,37) e os EUA (1,5).
No relatório “How’s Life? 2015”, os técnicos da OCDE revelam também os dados disponíveis sobre o sentimento de medo das pessoas quando têm de andar à noite sozinhas na rua.
Uma vez mais, as variações geográficas e por faixas etárias revela variações dignas de nota.
Na média da OCDE, são os mais velhos (50 ou mais anos de idade) que se sentem menos seguros (32,06%), seguidos dos jovens, com entre 15 e 29 anos (25,56%). Menos receio sentem os indivíduos com entre 30 e 49 anos de idade, com 76,08 a afirmarem não sentir receio.
Mas há variações, que o relatório não explica. Por exemplo, No japão, na Coreia e na Turquia, São os mais velhos que menos receio sentem em calcorrear as ruas noite adentro. Já na Itália, Polónia, Holanda Islândia e Rússia são os mais novos os que menos temem a noite…. E os mais velhos os que maior receio manifestam.
Neste indicador, Portugal fica na metade mais favorável da tabela, ainda que com uma variação “atípica” entre gerações. De facto, enquanto apenas 54,39% dos idosos lusos afirma sentir-se seguro, contra 72,73% dos indivíduos com entre 30 e 49 e 71,23% dos com entre 15 e 29 anos de idade.
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