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Jorge Nogueira[/caption]
Tragam já esse vestido, e façam-me o fato
H. C. Andersen
A medicina baseada nos indicadores tomou conta dos nossos serviços de saúde, sobretudo ao nível dos cuidados de saúde primários, e dita a sua lei incontestada. As excepções são pequenos nichos de resistência mais ou menos clandestinos, guardiões de bons hábitos antigos, que os há, embora em acelerada via de desagregação e desaparecimento.
Várias críticas têm sido feitas à ausência de verdadeira negociação, à quantidade e características dos indicadores, e até à sua desactualização, por vozes bem mais autorizadas do que a minha. Gostava de acrescentar o seguinte: não é possível cumprir os objectivos contratualizados sem ser pró-activo (ou mesmo sendo-o), isto é, sem convocar utentes para as consultas – “ir atrás deles”, como diz um colega. A convocatória, normalmente telefónica, é um acto preventivo na medida em que os utentes que são convocados são pessoas saudáveis, que convocamos para cumprir objectivos impostos e de utilidade muitas vezes duvidosa (que “ganhos em saúde”?), como é o caso bastante expressivo dos rastreios oncológicos. Confundir prevenção com rastreios oncológicos é cometer um erro grosseiro na avaliação do papel dos cuidados de saúde primários na saúde da população. Insistir em objectivos exagerados na área dos rastreios sem assegurar a devida resposta dos cuidados de saúde secundários é jogar ao gato e ao rato com a população e com os profissionais dos cuidados de saúde primários.
As convocatórias – telefónicas ou de outro tipo – representam um aumento significativo da quantidade de trabalho das administrativas, muitas vezes já no limite da sua capacidade, devido à carência de recursos humanos na área administrativa. Convocar utentes para as consultas é encorajar o consumismo médico, é promover a doença em lugar de promover a saúde. Entretanto, vamos tendo a nossa agenda preenchida com utentes saudáveis, convocados para consultas de iniciativa médica, enquanto os doentes que precisam de marcar consulta têm tempos de espera inaceitáveis.
Temos o tempo todo ocupado com os utentes saudáveis e não temos tempo para atender os doentes.
A minha pergunta é se isto faz sentido.
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Qual é a relação entre medicina e arte? Serão universos totalmente distintos? Poderá uma obra de arte ter um efeito “terapêutico”?