[caption id="attachment_10520" align="alignnone" width="300"]
Jorge Nogueira[/caption]
Peço desculpa ao tempo pela quantidade de mundo que por segundo omito
W. Szymborska
Por todo o país multidões de médicos e as suas associações representativas têm entoado cânticos de louvor ao novo sistema biométrico, alhures carinhosamente designado Didi, derivado da palavra dedo por desidridação. Não é caso para menos: na verdade, ele permite a ecológica dispensa do antiquado sistema da folha de ponto, o vetusto embora saudoso Pompom, derivado da palavra ponto por pomponização, o que quer dizer que por causa da poupança ecológica do Didi o mundo vai acabar cerca de um quarto de hora mais tarde do que o previsto. Chamar formiguinha ao Cisqual também é revelador do carinho que as instituições nutrem pelos profissionais e estes por aquelas. No entanto alguns ingratos mais recalcitrantes dizem que em vez da formiguinha devia lá estar um louva-a-deus, enfim vontade de dizer mal. Quanto ao Didi, ele já se revelou uma fonte inesgotável (por enquanto) de criatividade para os profissionais, com todo o simbolismo que decorre de introduzir um órgão cilíndrico numa coisa que é quase um orifício, e de esse órgão ser o dedo que aponta e a que se costuma chamar “indicador”, que isto anda tudo ligado. Podemos imaginar as fantasias erótico-catastrofistas que semelhante combinação permite – e autoriza? Pergunto se o sistema autoriza ou tolera a fantasia.
Mas voltemos ao Didi, do qual nos afastaram considerações excêntricas e extemporâneas, quando o Didi é cioso da nossa presença e fica nervoso quando nos afastamos – ó, lá está ele a chocalhar as correntes, temos que voltar depressa senão ele põe-se a uivar. O amor dos profissionais ao Didi manifesta-se nas expressões que se vão ouvindo pelos corredores, tais como “abençoado Didi”, “valha-nos o Didi”, ou “até amanhã se o Didi quiser”, e outras, é todo um vocabulário novo que nasce e um ambiente linguístico que se desenvolve, portador de uma nova forma de pensamento, à qual já alguns teóricos – sim, já há teóricos deste sistema – chamaram “escola Didi”, assim como há uma escola de Viena ou uma escola de Paris. Como percebemos pelas expressões citadas, esta escola tem vários pontos de contacto com a religião, não sendo difícil indicar qual, porque há indicadores.
Dizem que em alguns pontos do país, no interior, onde estas inovações tecnológicas chegam mais cedo – talvez porque não haja lá essa incómoda espécie humana em suficiente abundância para protestar – alguns Centros de Saúde instalaram voz nos Didis deles e ensinaram-nos a falar: quando o médico chega cedo de mais em relação ao horário, ouve-se uma vozinha estridente que grita “estúpido, chegaste cedo”, quando entra tarde a mesma voz ecoa nos corredores “ó meu c…, isto é que são horas?”, mais no Alentejo, noutras regiões a expressão é diferente e o Didi tem outro tipo de pronúncia, porque os Didis são locais, há mesmo quem exija a descentralização do Didi. As médicas têm versões correspondentes para o sexo feminino. Quando o médico sai tarde em relação ao horário, ou seja quase todos os dias, ouve-se a expressão “engraxador”, “lambe-botas” ou “manteigueiro” consoante as regiões do país.
Contaram-me que uma colega saiu à hora de almoço para uma rapidinha. Porém, é sabido que com a idade as rapidinhas vão-se tornando cada vez mais vagarosas, de modo que a colega atrasou-se para a consulta da tarde. Não houve problema, ela foi ao Sisqual – vulgo formiguinha, e fez uma justificação onde alegava “obrigações conjugais”. Segundo diz a minha fonte, parece que o coordenador, enternecido, validou.
Música para isto? Só se for “a gente vai continuar”, do Jorge Palma.
Por favor faça login ou registe-se para aceder a este conteúdo
Qual é a relação entre medicina e arte? Serão universos totalmente distintos? Poderá uma obra de arte ter um efeito “terapêutico”?