[caption id="attachment_11853" align="alignnone" width="300"]
Jorge Nogueira[/caption]
Je le pansai, Dieu le guérit
Ambroise Paré
Na língua portuguesa a cura está só ao alcance dos magos, dos profetas e de Deus. Ao alcance dos médicos está apenas o tratamento. É por isso que os doentes têm muitas vezes aquele comentário arreliador “estou melhor graças a Deus”, ou como dizia Ambroise Paré, que por acaso até era francês, “eu tratei-o, Deus curou-o”. Como a palavra tratar se usava pouco com esta acepção, o nosso pretérito colega Ambrósio em lugar dela usou a palavra “panser”, “je le pansai”, que é como quem diz “eu fiz-lhe o penso”, o que fazia sentido porque Ambroise era cirurgião de guerra e portanto tratava essencialmente de feridas, mutilações e misérias afins.
A palavra tratamento foi-se entretanto enriquecendo de sentido. Quando a usamos podemos estar a falar do tratamento médico-cirúrgico-enfermeiro; ou do nome que damos a uma pessoa, por exemplo “eu trato-o por Antunes”, no interior usa-se às vezes o coloquial “como é que te tratam?”, em vez do “como é que te chamas?”, no sentido de que eu não me chamo a mim próprio, são os outros que me dão nome, mais raramente para saber se a pessoa tem um alcunha ou um nome pelo qual prefere ser tratada. Por exemplo o meu primo Diocleciano, como é que o tratam? Clécio, Didi, Marciano, ou outro recurso? Finalmente, a palavra tratamento pode-se referir ao respeito e cuidado com que se lida com outra pessoa. Neste sentido, ser bem tratado significa ser respeitado, ser ouvido, ser bem acolhido, até mesmo ser amado, e ainda ser bem alimentado – em Portugal a comida é uma forma de relação e por isso de tratamento: ser bem tratado quer dizer que me enchem a barriga de coisas boas. Recenseio, enumero e elenco pois três sentidos para a palavra tratamento, sei que há mais mas estes três já dão trabalho que chegue:
1. Tratamento como cuidado médico;
2. Tratamento como nome;
3. Tratamento como atenção.
Vou misturá-los de propósito:
Este é um assunto que merece conversa, quer dizer narrativa, ou mesmo romance, entre nós – e com os doentes.
P.S. Há pouco tempo estive presente numa sessão de casos clínicos num hospital. A jovem especialista hospitalar apresentava o doente como “um senhor de 61 anos”. Independentemente da qualidade da apresentação, apetece-me exprimir um voto: se eu viver mais uns anos, espero que possam apresentar-me sempre como “um Homem” da idade que for tendo, seja qual for a do apresentador. Pelo meu lado, prometo tratar sempre uma senhora, tenha a idade que tiver, como uma Mulher.
Por favor faça login ou registe-se para aceder a este conteúdo
Qual é a relação entre medicina e arte? Serão universos totalmente distintos? Poderá uma obra de arte ter um efeito “terapêutico”?